
Imagem de Daniel Costa de Souza.
http://www.blog.costadessouza.com/E se ainda não podemos viver integralmente de Arte ...
Que a gente Viva com ARTE !!!
Outono ...
domingo, 23 de março de 2008
Textos relacionados Galeria
Quem é ?!
domingo, 2 de março de 2008
Hilda Hilst por Hilda Hilst, que é?
Sou um pequeno vitral e anis decompondo-se sobre a mesa onde a música fez cocô. Meu ovo cabe na galinha. Meus pés tortos cabem no céu. Bule de prata. Bata branca. Sou um corpo rajado, um sopro alto, que é brisa, e entorto a língua, a linguagem , disseco tripas, galopo meu quarto de um canto a outro e misturo histórias que contei antigamente. Sou Grande Caracol Baboso, lábio frouxo encantado. Já perdi dez milhões de sedas e estou aqui sovada, ampliada para a morte, coração minúsculo. Costumo de madrugada ,mas não conte a ninguém, dar lambidonas num corpo de Anjo que vermes descarnam. Acho esquisito chamar-me Hilda Hilst.
E Maria João ... acha estranho ter um nome para alguém a chamar de alguma cois.
É estranho ser gente, É esquisito ter que se dizer quem é ...
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domingo, 3 de fevereiro de 2008
Macabéia sente-se entediada com a rotina alucinante dos dias, observa pela janela do ônibus as pessoas, e pensa sobre a felicidade. Brinca de inventar poesia, e ri com que escreve...
Das Gentes
Você se sente assim feliz.
Feliz com a vida...
Acorda todo dias 07h30min.
[07h30min]
Corre para pegar o coletivo.
Almoça [as 12h00min horas]
Não que tenha fome.
Mais é horário do almoço.
Olha o relógio a cada minuto.
Minuto.
18h00min sinaliza o relógio.
Fim do expediente.
E você se sente feliz!
Chega em casa, trepa com a mulher.
Não por desejo!
As cochas dela já não te atraem mais.
Mais normal, nada que não se acostume.
Por que você se sente...se sente feliz...
Jogo de futebol na quarta.
Festa da empresa final do mês.
Todo esquematizadinho.
Nada de novo, nada de intenso.
Mais o que importa é saber que amanhã....
Que amanhã será tudo igual!
Igualzinho
Comer, trepar, trabalhar.
Trabalhar, comer, trepar.
É isso que importa.
Você finalmente conseguiu.
Conseguiu se adequar.
Agora faz parte das gentes.
Das gentes que é Feliz!
Ao reler o poema, sente-se extremamente não-feliz por estar atrasada para o trabalho, e com os cabelos por pentear...
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Compras de Natal
sábado, 22 de dezembro de 2007
A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades. Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que jamais estiveram no céu.As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam representar beleza e excelência.
Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos, deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo de animais, em Belém.
Todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime, nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso.
Grandes e pequenos, parentes e amigos são todos de gosto bizarro e extremamente suscetíveis. Também eles conhecem todas as lojas e seus preços — e, nestes dias, a arte de comprar se reveste de exigências particularmente difíceis. Não poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à nossa vista: seria uma vulgaridade. Teremos de descobrir o imprevisto, o incognoscível, o transcendente. Não devemos também oferecer nada de essencialmente necessário ou útil, pois a graça destes presentes parece consistir na sua desnecessidade e inutilidade. Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco) de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por estes nossos campos de batalha; ninguém ousará comprar uma boa caixa de sabonetes desodorantes para o suor da testa com que — especialmente neste verão — teremos de conquistar o pão de cada dia. Não: presente é presente, isto é, um objeto extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa alguma.
Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação, organizam suas sugestões para os compradores, valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão. Numa grande caixa de plástico transparente (que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane (que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor (que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete), e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas. Todos ficamos extremamente felizes!.São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.
Cecília Meireles
Texto extraído do livro "Quatro Vozes", Editora Record